11.4.08

Análise – Do caso IstoÉ e da integração latino americana

A reconfiguração política da América Latina aloca em novos patamares a luta de classes, com o surgimento in loco de novos campos e práticas de expressão, manifestação e ação políticas. A cultura, encarada não mais como fruto da genialidade de alguns "seres especiais", agora é vista como representação de contextos históricos e determinadas formas de significação da realidade. Isto eleva a compreensão da relação entre arte e política na dimensão social.

Ao mesmo tempo as contínuas conquistas no reconhecimento dos direitos humanos demonstra avanços na aceitação da igualdade da dignidade humana, pautando novos elementos fundamentais a potencializar as diversidades.

A comunicação, entendida sob sua perspectiva de participação na esfera pública, abre espaço para as reivindicações sociais em torno do monopólio midiático e potencializam a resistência por parte das culturas tradicionais e minorias por meio da apropriação da produção comunicativa.

As novas tecnologias de informação e comunicação permitem saltar da receptividade para a interação, “o foco saiu da audição e da visão para a interatividade”. Evoluir de “uma forma de pensar a mídia como instrumento de democratização (..) por uma forma de pensar a mídia como instrumento de permanente mutação”¹. Os setores historicamente desprivilegiados podem então olhar não apenas para a participação em si, mas no como e em que podem transformar os rumos de suas comunidades e como e em que escala isto contribui para a transformação da sociedade humana.

Simultanemente, o maior entendimento no campo das ciências humanas e físicas do meio ambiente e das relações que a sociedade humana construiu com o espaço e seus elementos constitutivos apontam para graves equívocos e conseqüências desastrosas em escala global, que já começam a acontecer.

A compreensão do meio ambiente como esfera pública e o delineamento da perspectiva socioambiental faz com que se perceba a "mediação" que o viés ambiental, ou o conceito de sustentabilidade, pode exercer entre as dimensões da realidade humana terrena, influenciando a atuação política e os padrões de construção social.

A questão de classes, aqui, aparece mais nucleada num âmbito global e virtual, como que acompanhando as transformações ocorridas nas percepções espacial e temporal promovidas pela urbanização e customização do espaço e do tempo, pelas novas TIC's, sobretudo a internet, e o rompimento das fronteiras geográficas e culturais.

A distinção classista, que antes ficava clara no cotidiano do trabalho e da vida comum, agora tem sua representação mais fiel no monopólio da grande mídia. A própria divisão entre burguesia e proletariado não se dá tão claramente nos dias contemporâneos. A classe média em geral sucumbe à manipulação ideológica e mal percebe esta diferenciação, mesmo quando influenciada e atingida por ela, pois a divisão de classes não é parte objetiva de sua realidade vivencial, está camuflada nos fluxos de informação majoritários que bombardeiam involuntariamente sem parar.

O recente caso da revista IstoÉ, que manipulou uma foto para proteger o governador de São Paulo, o tucano José Serra², (veja as imagens no post abaixo) ilustra bem as proposições acima colocadas e demonstra em que lugar está a ética e o interesse público para estes veículos de comunicação.

Um fato escandaloso deste tipo não reverbera na mídia e indica um corporativismo no setor, enquanto o caso privado da morte da menina Isabela é usado para espetacularizar a vida e levar as pessoas para dentro da realidade privada e fora da realidade pública.

Numa reportagem claramente construída para criminalizar o MST³, dos sete nomes citados na reportagem quatro são de executivos de grandes empresas: Paulo Skaf (presidente da Fiesp), Eike Batista (homem mais rico do Brasil e um dos maiores acionistas da Vale do Rio Doce), Walter Cover (diretor de projetos institucionais e gestão ambiental da Vale) e José Conrado Santos (presdente da Fiepa).

O senador Heráclito Fortes (DEM-PI) também foi ouvido, com declarações contra as ações do MST. Mas em nenhum momento o texto explica que a Bunge, uma das empresas que estariam sendo intimidadas pelo MST e é citada na matéria, doou R$ 50 mil para a campanha do então candidato ao senado.

Os outros dois nomes citados são lideranças do MST, João Pedro Stédile e Maria Raimunda César. O primeiro só é citado e a fala de Maria Raimunda, posta como "contra os fatos": os crescimento da Vale do Rio Doce após a privatização, o sucesso do agronegócio e da siderurgia, a abertura de postos de trabalho no campo, a manutenção do superávit comercial e a credibilidade do país perante os investidores.

Mas os fatos reais indicam que o êxodo rural é crescente e um dos maiores fatores geradores de conflitos sociais no Brasil. Segundo o IBGE em 1960 um total de 55% da população brasileira morava no campo e, em 2000, 82% dos brasileiros já viviam em zonas urbanas. Outro fato: de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento Agrário a agricultura familiar emprega duas vezes mais que os grandes latifúndios.

Porém, "nos grandes centros é mais fácil encontrar pessoas que há pouco vieram do que tradicionais"4. Fica então a pergunta: se o agronegócio é tão favorável ao interesse público, porque a cada ano que passa as grandes propriedades rurais avançam mais sobre as pequenas e as cidade estão mais inchadas, apesar da despreparada infra-estrutura?

O episódio do golpe midiático contra o presidente venezuelano Hugo Chaves, em 2002, também demonstra a plataforma da luta de classes usada pelos detentores do capital. Após ser sequestrado e mantido em cativeiro incomunicavelmente, os veículos de comunicação de massa da Venezuela começaram a divulgar que Chaves havia renunciado ao cargo. Ele retomou o poder quase 48 horas depois, pouco depois do golpe ganhar visibilidade internacional. Casos como este e da IstoÉ explicitam a opinião e postura da grande mídia sobre os movimentos sociais e sobre os governos populares.

Os movimentos sociais nos dias de hoje, salvo exceções, lutam contra construções objetivas enquanto a construção capitalista é em base subjetiva. Um caminho seria buscar a afirmação cultural in loco e a apropriação dos meios de produção comunicativa. Encarar a manifestação cultural com outro nível de importância política e valorizar e instrumentalizar a comunicação de pequena escala, encontrando um novo lugar e função para a comunicação de massa.

E ainda mais efetivo seria junto a isto negar a dicotomia entre saber científico e saber tradicional numa perspectiva agroecológica e educomunicativa de construção social. A integração da América Latina não é unicamente estrutural, política e econômica, como propõem por caminhos distintos os imperialistas e o setor privado nacional e os movimentos sociais. Ela é, sobretudo, histórica e cultural.

¹ Revista Sociologia Ciência e Vida. Ano II, número 16. A mídia na mira da sociologia – entrevista com Alberto Abruzzese (pág.11)

² Leia mais na matéria da Agência Brasil de Fato “IstoÉ manipula foto para proteger Serra”

³ Reportagem “MST contra o desenvolvimento”, da edição 2005, de 9 de abril de 2008.

4 Callegare, Cesar. Revista Sociologia Ciência e Vida. Ano II, número 16. A reforma urbana (pág. 17)

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10.4.08

Jogo do(s) erro(s): descubra o(s) erro(s) da IstoÉ

A revista IstoÉ deu um verdadeiro presente aos debates das aulas de ética das faculdades de comunicação e jornalismo, em específico. Como mostra a Agência Brasil de Fato, um texto altamente tendencioso se esforça para criminalizar o MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra) e uma foto é manipulada para proteger o governador de São Paulo, o tucano José Serra.

A reportagem “MST contra o desenvolvimento” é um dos destaques do número desta semana (edição 2005 – 9 de abril de 2008). Com a chamada de capa “Abril Vermelho – Sem reação do governo, o MST intimida empresas e promove o mais violento protesto de sua história”, os leitores são convidados a mergulhar na implícita perspectiva da publicação sobre uma importante parcela da sociedade organizada: os movimentos sociais.


A reportagem é destaque na página inicial do portal
IstoÉ Online, com a foto adulterada


Na versão digital da revista, idêntica à impressa,
a foto acompanha o início da matéria


Na foto de Cristiano Machado, no portal Folha Imagem,
a placa aparece com o escrito “Fora Serra”

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7.1.08

Cada qual com seu ano novo

Mais um ano gregoriano acabou e outro começou. Aqui no litoral, todos na praia aguardando a meia-noite como se a vida fosse mudar após o relógio demonstrar que outro ano começa.

E me pergunto: por que o ano termina 31 de dezembro e começa 1° de janeiro para todo mundo? Como em todas, algo de muito estranho nesta convenção.

Falar de ano é fazer referência a um ciclo: o movimento de translação. A dança de 365 giros de Gaia sobre o próprio eixo enquanto dá uma volta no Sol, como que em reverência à criação. Uma dança que na verdade nunca termina, recomeça...

Assim é também com os outros planetas regidos pelo tempo Sol. Giram em torno dele numa dança interminável, mas não levam o mesmo tempo que a Terra para completar o ciclo de translação. Assim como os Astros, tenho o meu próprio jeito de dançar e me recuso a dançar em passinhos como os pagodeiros do apocalipse!

A volta ocidental em torno do Sol é regida pelo calendário gregoriano, segundo o qual os anos de todos nós começam e terminam simultaneamente. Imagine o Sol vestido de branco, estourando um espumante e a jantar lentilha...

À luz de uma proposta de organização temporal, vê-se rapidamente que o calendário gregoriano não é indicado para ordenar um ciclo. Tem subciclos irregulares (meses, semanas, dias...) e geração mecânica. Além da característica padronização propagada pelas forças globalizantes ocidentais. Não organiza, mas controla e massifica. E bagunça.


Em suma, o tempo não é, nunca foi e nunca será igual para ninguém, apesar de convivermos uma sicronia temporal. Não entramos aqui todos juntos e não seguimos as mesmas rotas, mas estamos todos aqui e compartilhamos o mesmo destino; assim como nos encontramos a todo instante no limiar do paradoxo autonomia e coletividade.

O tempo é a mente e a mente é a expressão cósmica do agora. Quando o agora é um tempo-igual-para-todos perde o encanto mágico da autonomia e o valor da criação. O tempo-igual-para-todos oprime o inesperado, é pre-estabelecido, esfaqueia a espontaneidade... Não entrei nesta dimensão junto a todos nem sequer vim pela mesma porta!

O girar dos ponteiros promove o passado de mera lembrança a fantasia vivenciada e cria nostalgia por um desejo desconhecido. Já o futuro, este sim, o único sobre o qual ainda é possível ser autônomo, torna-se a meta por excelência.

Quem tem o tempo igual a todos acha o agora insosso, sem sal, apócrifo; considera o passado a utopia conhecida; imagina para o futuro a possibilidade de reviver o passado ou um destino determinado.

E os sonhos têm quase sempre a forma de um futuro de poder. Este, qualquer que seja, distancia os homens do agora, instante atômico que passa despercebido pelos sentidos físicos; e não se pode esquecer que se distanciar do agora é fugir da própria mente.

Todos os sonhos de poder apntam para a matéria, e a matéria, que só pode ser tocada, não pode ser vivida, pode ser tocada por apenas alguns poucos. Para muitos não passa de desejo, para poucos é objetivo e resultado.

De qualquer forma, a matéria por si só não é uma utopia vivenciável. Como intuito, ela frustra as expectativas de realização, de possíveis melhoras e de harmonia com/no/do mundo até se perder a autonomia sobre os próprios sonhos.

Quem nunca desejou um produto inútil porque a propaganda instigou? Cuidado com os publicitários!, eles pode ser traiçoeiros... foram escolhidos para ser os oráculos da Babilônia! E por isso mesmo sua linguagem deve ser apropriada pela movimentação.


Não podemos permitir que o tempo e os sonhos sejam controlados. Deseje feliz ano novo no aniversário das pessoas.

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26.11.07

Olhem pro espelho

Fui para Barra do Ribeira no último final de semana. No ônibus a caminho de Iguape, passando pelos extensos bananais de Itariri, Pedro de Toledo e Miracatu, me veio esse texto que segue abaixo. Espero que gostem =]


Espelho, espelho meu...

Já foi pedra, e causou tropeço. Já foi degrau, e fez tombar. Já foi banco da praça. Nunca enxergou direito mesmo, bateu feio o joelho.

Mesmo atordoado seguiu em frente. Caiu, levantou e caminhou. Hoje corre; e cai, mas não pára de correr.

Meio capenga, já foi muro. Nunca enxergou direito mesmo. Bateu a cara. Quebrou o nariz e perdeu os atacantes. O sorriso, que já era amarelo, ficou amarelo e desfalcado e hoje ainda, quase sempre de azulejo.

Insaciável em sua gastura, insatisfeito em ser muro, quis ser arranha-céu. E foi gêmeos, que desabaram sobre a própria cabeça.

Manco, caolho, aleijado, com a cara torta e esclerosado, mas ainda insaciável em sua gastura, agora é abismo. Nunca enxergou direito mesmo. Desenvolvimento! E hoje corre, rumo ao abismo. E cai?!

Mas... oh! Evolução? Uma esperança? Ou será apenas mais uma adaptação, o mesmo círculo vicioso com outra máscara que não causa mudança? Não, não. É preciso e positivo acreditar. Sistemia físico-técnico-espírito-sócio-afetivo-epistemológico-sensitivo-comunicacional. Algumas vozes já assumem que a hegemonia precisa ruir, que a necessidade premente é evoluir, que não dá mais pra se encaixar e seguir o fluxo. O fluxo é o mercado e sensações são mercadorias.

Sim, o mundo precisa mudar. Que mundo precisa mudar? "O que está embaixo é como o que está no alto. O que está no alto é como o que está embaixo". Assim falava Hermes Trimegisto.

O interior é mundo, o mundo é interior. E o interior pode ser pedra, degrau, banco da praça, muro e arranha-céu. E tantas outras coisas. O interior é o que se faz dele e por ele nos lugares e nos mundos, e vice-versa.

Hakim Bey diz que "a Babilônia toma suas abstrações como realidade". O homem pode ser seu próprio abismo. Entendendo o mundo como espelho, se torna duro olhar no espelho.

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2.11.07

Sai que a comida é minha!

Era muito bom para ser verdade. E tão fácil. Perder tempo seria o maior dos erros, pois oportunidades como esta não acontecem todos os dias. Uma montanha doce como aquela não podia ser desperdiçada. Sabia que precisava correr, avisar os companheiros e mobilizar para o trabalho.

Afinal, acabou de acabar, mas não demora muito outro inverno vem aí e a dispensa não poderá estar vazia, a galeria de fungos necessitava de substrato... Senão, como alimentaria toda a comunidade?
Nessas horas o dever chama. Era hora de usar as seis pernas tão bem treinadas para estas responsabilidades. Mas com certeza não aguentaria. Que adianta se enganar. Perder tempo pensando é um erro, não há folga pra isso. Quando não faz, sempre dá pano pra manga. E além do mais ainda há os gigantes. Gigantes são os macacos pelados, nunca se sabe qual temperamento domina seu momento. Se um deles chegar...
Tinha consciência plena que não deveria, mas o bolo era tão bonito... O cheiro de aimpim... Sem demora. Um pedacinho só e correria como nunca. Rápido como o Papa Léguas! O risco aumentaria, mas sua compulsão só fazia berrar em sua cabecinha atordoada. Não aguentou. Correu até o grande bolo de aipim que se encontrava sobre uma boleira laranja com a tampa um tanto torta, passou pelo vão que se formava e deu uma mordida. Ah! Agora sim poderia cumprir satisfeito sua missão.

Era uma formiga operária. Explorar a casa em busca de alimentos doces e avisar o operariado quando topasse com guloseimas era a sua missão. Somente as formigas mais habilidosas e destemidas ocupavam este cargo, que necessitava de destreza, velocidade e muita inteligência. Valentes, desafiam os perigos do mundo dos gigantes sozinhas. As outras vão em bando depois que as exploradoras dão o sinal. Enfrentar os grandes pés e aquela impiedosa atitude dos macacos pelados com os insetos que interagiam no território... Cada excursão era um delicioso desafio para esta formiga responsável pela segurança alimentar da comunidade. Para as famílias cada saída a campo era motivo de preocupação e apreensão.

Desde criança já apresentava um metabolismo mais acelerado que o normal - os pais chegaram a desconfiar de hiperatividade. Sempre quis ser uma operária exploradora. O que faria, se não viver a emoção do desconhecido? E sempre foi apoiado pelos pais, apesar dos riscos. Porque explorar o mundo dos gigantes era motivo de orgulho para qualquer família de formigas. Sair por aí em busca de comida era das mais importantes funções da sociedade formiguense.

Os gigantes construíram caixas gigantes sobre o mundo das formigas. O tempo passou e as formigas, espertas, se adaptaram. Os jardins, as paredes... tanto lugar bom pra formigueiros! E então primavera e verão viraram estações de aventura para as destemidas formigas exploradoras, que precisam disputar com os macacos pelados boa parte do alimento que comerão nas estações frias. Não importa se era resto, alimentos que iam pro lixo. Era só um macaco pelado pegar formigas trabalhando que era atingido por um surto de antropocentrismo e trucidar as inocentes operárias.

Tinha acabado de passar pelo vão, saindo da boleira. Agora era a hora de correr como nunca. Mal pensou que não era um bom momento para aparecer um gigante, eis que surge pela porta da cozinha. E viu a formiga. Ela correu, sabendo que não adiantaria. A mão do macaco pelado já descia a toda sobre seu corpo.

De repente acordou, não se mexeu por instante e levantou ainda meio babaca de sono. O nariz estava irritado. Devia ser o ar condicionado, comentou já com a esposa que não está legal o aparelho, provavelmente sujo e cheio de ácaros, só não tomou nenhuma atitude. Foi até o banheiro, olhou para o espelho, abriu a torneira e jogou água no rosto. Agora já podia ir tomar o café da manhã, só precisava pegar o notebook, estava esperando um e-mail importantíssimo para aquela manhã.

Caminhando até cozinha viu um pontinho preto se mechendo no chão do corredor, um tanto à frente. Se aproximou e reconheceu uma formiga carregando um pedaço de não sei o quê. Lembrou do sonho que teve e pensou nas formigas, em todas que já matou. Chegou então à conclusão que, por mais que fosse um homem estudado, viajado, moderno, inteligente e muito bem educado, "fino", como diriam as madames, por vezes e outras se pegava em disputa por alimento com os insetos de sua casa.

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19.9.07

Nós aqui dentro da bola azul

Hoje qro falar da relação homem/natureza, numa concepção que considera um e outro coisas mesmas. Prometo tentar fazer desta a última vez que escrevo a respeito disto pois a simples afirmação de que homem e natureza são a mesma coisa já denota a possibilidade de separação do homem e do ambiente.

Esta reflexão que escrevo aqui me veio hoje de manhã ao ler um artigo que defendia a construção de novas formas de relação dos homens entre si e com o ambiente que integram, algo extremamente comum em textos que abordam a crise paradigmática por que passa a espécie humana. Crise esta culpada pelos dilemas contemporâneos e pelos problemas socioambientais globais.

O artigo, que fala sobre a EA no processo de gestão ambiental, aborda as relações sociais e com o ambiente como coisas distintas uma da outra. Se considerarmos que homem e natureza não são coisas diferentes, podemos então afirmar que o desencantamento da humanidade provocado pelas máximas do consumo e da competitividade é uma dimensão fundamental das problemáticas globais contemporâneas.


Assim sendo, fica fácil compreender que o ambiente pessoal, interno (ecologia humana), só se completa na relação com o Outro (ecologia social) e com o meio (ecologia natural). Em outras palavras, é a interação entre o ambiente interno e o ambiente externo que caractreiza a personalidade das pessoas, moldando valores e comportamentos. Se torna, dessa forma, incoerente a concepção das relações sociais como algo distinto das relações com o meio.

É bem simples. O equilíbrio ecológico depende de harmoniosa e sadia interação de todos os elementos, bióticos e abióticos, que compõem o meio ambiente. Entre todos os níveis de complexidade da realidade, as conexãos devem estar estabelecidas, permitindo a ocorrência dos fluxos de energia e recursos.

Nas sociedades humanas, além de energia e recursos, os fluxos transportam também afeto e informações. São os fluxos e elementos básicos das relaçoes humanas. Sem a troca de informações e afeto, as sociedades trilham um caminho que tem o colapso atrás da porta final. Desencantadas e em crescente desconexão, as relações sociais representam dimensão central das problemáticas socioambientais.

Falta de afeto e centralização na produção de informações e conhecimentos são, ao meu ver, os elementos fundamentais da crise global. As pessoas não mais trocam olhares e carinhos. As grandes corporações midiáticas centralizam a produção e distribuição de informações.

O acesso a recursos (o maldito dindin) e energia (alimentos, água) é afetado em decorrência dos outros laços rompidos, citados anteriormente. Mas são considerados mais importantes que um abraço ou uma boa conversa.

Se queremos pensar em intervir enquanto cidadãos para a construção de sociedades sustentáveis, é fundamental a consolidação de novos padrões de relacionamento, buscando conexões harmoniosas entre as pessoas. Então não basta fazer reciclagem, plantar mudas de árovres e coisas do gênero,mas literalmente mudar a casa (oikos), sendo que a primeira casa de toda pessoa é sua mente.


Se queremos pensar em soluções para os problemas globais, precisamos compreender que, em toda esta diversidade que vemos, somos apenas uma bola azul que flutua no universo.

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14.8.07

Universo simbólico e o espantalho gramatical


No Brasil, a Educação Ambiental é um campo construído historicamente como a prática educativa do movimento ecológico. A estratégia de permanente questionamento e desconstrução dos padrões de relações e enraizamento dos valores, preceitos, princípios éticos, formas de visões e linhas de pensamento do movimento ambientalista que, complexo em si mesmo, possui diversas correntes.

Por aqui, a EA foi lapidada e fortalecida fora do contexto escolar. Delineando-se como um movimento de educação popular, configura uma espécie de subsistema do movimento socioambientalista que, ao tomar contornos deste, com sua crítica radical aos padrões tradicionais de relações pessoais, públicas, espirituais etc, se apropria de termos, conceitos, teorias e linhas filosóficas comuns aos ecologistas.

Esse processo histórico estabeleceu um universo simbólico e conceitual do movimento socioambiental, que exerce uma função aglutinadora, identitária, estabelecendo laços simbólicos e códigos comuns entre os militantes. Mas alguns acontecimentos recentes suscitaram reflexões sobre até que ponto tal universo simbólico é positivo e quando começa a ser um complicador.

Após o III EEEA – Encontro Estadual de EA de São Paulo, alguns feedbacks de pessoas que foram ao evento apresentaram um certo desconforto.

O encontro era o ponto culminante do processo de consulta pública à minuta da Política Estadual de EA, reunindo profissionais da EA das antigas e muitos jovens altamente engajados. Mas reuniu também muitos professores e jovens curiosos e interessados em conhecer melhor este campo que emerge em importância com a deflagração dos problemas ambientais na atualidade. Destes últimos, alguns disseram sentir-se perdidos no meio de tanta siglas desconhecidas e termos diferentes com os que estão acostumados.

REPEA, CJs, REJUMA, REABS, RUPEA, Coeduca, Cescar, Coletivos Educadores, Redes, socioambiente, pensamento holístico, sistêmico, comunidades de aprendizagem, ecoalfabetização, agenda 21, carta da terra, Tratado de EA para sociedade sustentáveis e responsabilidade global... e por aí vai.

Este universo conceitual acaba desenvolvendo uma função de duas mãos. Ao mesmo tempo que dá um certo sentido de coesão e serve como forma de distanciar das raízes culturais hegemônicas, entranhadas de valores capitalistas, patriarcais, industriais, as experiências dos últimos dias demonstraram que este universo conceitual pode também ser uma barreira para a participação de novos atores nesta cena.

E depois do boom das redes então, somada à forte ligação que o movimento ambiental estabelece com este padrão organizacional, surge também uma constelação de siglas que passam integrar esse universo simbólico e conceitual, fazendo-se presentes do cotidiano dos atores sociais envolvidos com a área, complicando ainda mais sua compreensão.

A Educação Ambiental assume uma postura altamente integrativa, até mesmo pelo viés transdiciplinar da temática socioambiental, que permite interfaces com inúmeros outros temas. Se propõe a dialogar com todos os grupos possíveis, tentando deflagrar processos de reflexão individual e coletiva sobre a postura que temos assumido perante Gaia e o que isto tem significado, com o intuito de construir novas percepções da realidade e novas formas de pensamento, alinhadas com os princípios da sustentabilidade.

Mas para ajudar a construir o “outro mundo possível”, a educação ambiental não deve descuidar da sua capacidade de agregação de novos agentes. Sobretudo nestes eventos, um risco muito grande é cairmos na arrogância do jargão.


É um verdadeiro paradoxo que nos suscita um importante questionamento: como manter e fortalecer esses laços identitários, que carregam uma crítica direta aos padrões de consumo e de relacionamento dos humanos entre si, com as outras formas de vida e com o ambiente e que, portanto, trazem grande potencial de permear novos símbolos no imaginário coletivo, sem que isso se torne um "espantalho gramatical" do movimento?

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