26.11.07

Olhem pro espelho

Fui para Barra do Ribeira no último final de semana. No ônibus a caminho de Iguape, passando pelos extensos bananais de Itariri, Pedro de Toledo e Miracatu, me veio esse texto que segue abaixo. Espero que gostem =]


Espelho, espelho meu...

Já foi pedra, e causou tropeço. Já foi degrau, e fez tombar. Já foi banco da praça. Nunca enxergou direito mesmo, bateu feio o joelho.

Mesmo atordoado seguiu em frente. Caiu, levantou e caminhou. Hoje corre; e cai, mas não pára de correr.

Meio capenga, já foi muro. Nunca enxergou direito mesmo. Bateu a cara. Quebrou o nariz e perdeu os atacantes. O sorriso, que já era amarelo, ficou amarelo e desfalcado e hoje ainda, quase sempre de azulejo.

Insaciável em sua gastura, insatisfeito em ser muro, quis ser arranha-céu. E foi gêmeos, que desabaram sobre a própria cabeça.

Manco, caolho, aleijado, com a cara torta e esclerosado, mas ainda insaciável em sua gastura, agora é abismo. Nunca enxergou direito mesmo. Desenvolvimento! E hoje corre, rumo ao abismo. E cai?!

Mas... oh! Evolução? Uma esperança? Ou será apenas mais uma adaptação, o mesmo círculo vicioso com outra máscara que não causa mudança? Não, não. É preciso e positivo acreditar. Sistemia físico-técnico-espírito-sócio-afetivo-epistemológico-sensitivo-comunicacional. Algumas vozes já assumem que a hegemonia precisa ruir, que a necessidade premente é evoluir, que não dá mais pra se encaixar e seguir o fluxo. O fluxo é o mercado e sensações são mercadorias.

Sim, o mundo precisa mudar. Que mundo precisa mudar? "O que está embaixo é como o que está no alto. O que está no alto é como o que está embaixo". Assim falava Hermes Trimegisto.

O interior é mundo, o mundo é interior. E o interior pode ser pedra, degrau, banco da praça, muro e arranha-céu. E tantas outras coisas. O interior é o que se faz dele e por ele nos lugares e nos mundos, e vice-versa.

Hakim Bey diz que "a Babilônia toma suas abstrações como realidade". O homem pode ser seu próprio abismo. Entendendo o mundo como espelho, se torna duro olhar no espelho.

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2.11.07

Sai que a comida é minha!

Era muito bom para ser verdade. E tão fácil. Perder tempo seria o maior dos erros, pois oportunidades como esta não acontecem todos os dias. Uma montanha doce como aquela não podia ser desperdiçada. Sabia que precisava correr, avisar os companheiros e mobilizar para o trabalho.

Afinal, acabou de acabar, mas não demora muito outro inverno vem aí e a dispensa não poderá estar vazia, a galeria de fungos necessitava de substrato... Senão, como alimentaria toda a comunidade?
Nessas horas o dever chama. Era hora de usar as seis pernas tão bem treinadas para estas responsabilidades. Mas com certeza não aguentaria. Que adianta se enganar. Perder tempo pensando é um erro, não há folga pra isso. Quando não faz, sempre dá pano pra manga. E além do mais ainda há os gigantes. Gigantes são os macacos pelados, nunca se sabe qual temperamento domina seu momento. Se um deles chegar...
Tinha consciência plena que não deveria, mas o bolo era tão bonito... O cheiro de aimpim... Sem demora. Um pedacinho só e correria como nunca. Rápido como o Papa Léguas! O risco aumentaria, mas sua compulsão só fazia berrar em sua cabecinha atordoada. Não aguentou. Correu até o grande bolo de aipim que se encontrava sobre uma boleira laranja com a tampa um tanto torta, passou pelo vão que se formava e deu uma mordida. Ah! Agora sim poderia cumprir satisfeito sua missão.

Era uma formiga operária. Explorar a casa em busca de alimentos doces e avisar o operariado quando topasse com guloseimas era a sua missão. Somente as formigas mais habilidosas e destemidas ocupavam este cargo, que necessitava de destreza, velocidade e muita inteligência. Valentes, desafiam os perigos do mundo dos gigantes sozinhas. As outras vão em bando depois que as exploradoras dão o sinal. Enfrentar os grandes pés e aquela impiedosa atitude dos macacos pelados com os insetos que interagiam no território... Cada excursão era um delicioso desafio para esta formiga responsável pela segurança alimentar da comunidade. Para as famílias cada saída a campo era motivo de preocupação e apreensão.

Desde criança já apresentava um metabolismo mais acelerado que o normal - os pais chegaram a desconfiar de hiperatividade. Sempre quis ser uma operária exploradora. O que faria, se não viver a emoção do desconhecido? E sempre foi apoiado pelos pais, apesar dos riscos. Porque explorar o mundo dos gigantes era motivo de orgulho para qualquer família de formigas. Sair por aí em busca de comida era das mais importantes funções da sociedade formiguense.

Os gigantes construíram caixas gigantes sobre o mundo das formigas. O tempo passou e as formigas, espertas, se adaptaram. Os jardins, as paredes... tanto lugar bom pra formigueiros! E então primavera e verão viraram estações de aventura para as destemidas formigas exploradoras, que precisam disputar com os macacos pelados boa parte do alimento que comerão nas estações frias. Não importa se era resto, alimentos que iam pro lixo. Era só um macaco pelado pegar formigas trabalhando que era atingido por um surto de antropocentrismo e trucidar as inocentes operárias.

Tinha acabado de passar pelo vão, saindo da boleira. Agora era a hora de correr como nunca. Mal pensou que não era um bom momento para aparecer um gigante, eis que surge pela porta da cozinha. E viu a formiga. Ela correu, sabendo que não adiantaria. A mão do macaco pelado já descia a toda sobre seu corpo.

De repente acordou, não se mexeu por instante e levantou ainda meio babaca de sono. O nariz estava irritado. Devia ser o ar condicionado, comentou já com a esposa que não está legal o aparelho, provavelmente sujo e cheio de ácaros, só não tomou nenhuma atitude. Foi até o banheiro, olhou para o espelho, abriu a torneira e jogou água no rosto. Agora já podia ir tomar o café da manhã, só precisava pegar o notebook, estava esperando um e-mail importantíssimo para aquela manhã.

Caminhando até cozinha viu um pontinho preto se mechendo no chão do corredor, um tanto à frente. Se aproximou e reconheceu uma formiga carregando um pedaço de não sei o quê. Lembrou do sonho que teve e pensou nas formigas, em todas que já matou. Chegou então à conclusão que, por mais que fosse um homem estudado, viajado, moderno, inteligente e muito bem educado, "fino", como diriam as madames, por vezes e outras se pegava em disputa por alimento com os insetos de sua casa.

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19.9.07

Nós aqui dentro da bola azul

Hoje qro falar da relação homem/natureza, numa concepção que considera um e outro coisas mesmas. Prometo tentar fazer desta a última vez que escrevo a respeito disto pois a simples afirmação de que homem e natureza são a mesma coisa já denota a possibilidade de separação do homem e do ambiente.

Esta reflexão que escrevo aqui me veio hoje de manhã ao ler um artigo que defendia a construção de novas formas de relação dos homens entre si e com o ambiente que integram, algo extremamente comum em textos que abordam a crise paradigmática por que passa a espécie humana. Crise esta culpada pelos dilemas contemporâneos e pelos problemas socioambientais globais.

O artigo, que fala sobre a EA no processo de gestão ambiental, aborda as relações sociais e com o ambiente como coisas distintas uma da outra. Se considerarmos que homem e natureza não são coisas diferentes, podemos então afirmar que o desencantamento da humanidade provocado pelas máximas do consumo e da competitividade é uma dimensão fundamental das problemáticas globais contemporâneas.


Assim sendo, fica fácil compreender que o ambiente pessoal, interno (ecologia humana), só se completa na relação com o Outro (ecologia social) e com o meio (ecologia natural). Em outras palavras, é a interação entre o ambiente interno e o ambiente externo que caractreiza a personalidade das pessoas, moldando valores e comportamentos. Se torna, dessa forma, incoerente a concepção das relações sociais como algo distinto das relações com o meio.

É bem simples. O equilíbrio ecológico depende de harmoniosa e sadia interação de todos os elementos, bióticos e abióticos, que compõem o meio ambiente. Entre todos os níveis de complexidade da realidade, as conexãos devem estar estabelecidas, permitindo a ocorrência dos fluxos de energia e recursos.

Nas sociedades humanas, além de energia e recursos, os fluxos transportam também afeto e informações. São os fluxos e elementos básicos das relaçoes humanas. Sem a troca de informações e afeto, as sociedades trilham um caminho que tem o colapso atrás da porta final. Desencantadas e em crescente desconexão, as relações sociais representam dimensão central das problemáticas socioambientais.

Falta de afeto e centralização na produção de informações e conhecimentos são, ao meu ver, os elementos fundamentais da crise global. As pessoas não mais trocam olhares e carinhos. As grandes corporações midiáticas centralizam a produção e distribuição de informações.

O acesso a recursos (o maldito dindin) e energia (alimentos, água) é afetado em decorrência dos outros laços rompidos, citados anteriormente. Mas são considerados mais importantes que um abraço ou uma boa conversa.

Se queremos pensar em intervir enquanto cidadãos para a construção de sociedades sustentáveis, é fundamental a consolidação de novos padrões de relacionamento, buscando conexões harmoniosas entre as pessoas. Então não basta fazer reciclagem, plantar mudas de árovres e coisas do gênero,mas literalmente mudar a casa (oikos), sendo que a primeira casa de toda pessoa é sua mente.


Se queremos pensar em soluções para os problemas globais, precisamos compreender que, em toda esta diversidade que vemos, somos apenas uma bola azul que flutua no universo.

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14.8.07

Universo simbólico e o espantalho gramatical


No Brasil, a Educação Ambiental é um campo construído historicamente como a prática educativa do movimento ecológico. A estratégia de permanente questionamento e desconstrução dos padrões de relações e enraizamento dos valores, preceitos, princípios éticos, formas de visões e linhas de pensamento do movimento ambientalista que, complexo em si mesmo, possui diversas correntes.

Por aqui, a EA foi lapidada e fortalecida fora do contexto escolar. Delineando-se como um movimento de educação popular, configura uma espécie de subsistema do movimento socioambientalista que, ao tomar contornos deste, com sua crítica radical aos padrões tradicionais de relações pessoais, públicas, espirituais etc, se apropria de termos, conceitos, teorias e linhas filosóficas comuns aos ecologistas.

Esse processo histórico estabeleceu um universo simbólico e conceitual do movimento socioambiental, que exerce uma função aglutinadora, identitária, estabelecendo laços simbólicos e códigos comuns entre os militantes. Mas alguns acontecimentos recentes suscitaram reflexões sobre até que ponto tal universo simbólico é positivo e quando começa a ser um complicador.

Após o III EEEA – Encontro Estadual de EA de São Paulo, alguns feedbacks de pessoas que foram ao evento apresentaram um certo desconforto.

O encontro era o ponto culminante do processo de consulta pública à minuta da Política Estadual de EA, reunindo profissionais da EA das antigas e muitos jovens altamente engajados. Mas reuniu também muitos professores e jovens curiosos e interessados em conhecer melhor este campo que emerge em importância com a deflagração dos problemas ambientais na atualidade. Destes últimos, alguns disseram sentir-se perdidos no meio de tanta siglas desconhecidas e termos diferentes com os que estão acostumados.

REPEA, CJs, REJUMA, REABS, RUPEA, Coeduca, Cescar, Coletivos Educadores, Redes, socioambiente, pensamento holístico, sistêmico, comunidades de aprendizagem, ecoalfabetização, agenda 21, carta da terra, Tratado de EA para sociedade sustentáveis e responsabilidade global... e por aí vai.

Este universo conceitual acaba desenvolvendo uma função de duas mãos. Ao mesmo tempo que dá um certo sentido de coesão e serve como forma de distanciar das raízes culturais hegemônicas, entranhadas de valores capitalistas, patriarcais, industriais, as experiências dos últimos dias demonstraram que este universo conceitual pode também ser uma barreira para a participação de novos atores nesta cena.

E depois do boom das redes então, somada à forte ligação que o movimento ambiental estabelece com este padrão organizacional, surge também uma constelação de siglas que passam integrar esse universo simbólico e conceitual, fazendo-se presentes do cotidiano dos atores sociais envolvidos com a área, complicando ainda mais sua compreensão.

A Educação Ambiental assume uma postura altamente integrativa, até mesmo pelo viés transdiciplinar da temática socioambiental, que permite interfaces com inúmeros outros temas. Se propõe a dialogar com todos os grupos possíveis, tentando deflagrar processos de reflexão individual e coletiva sobre a postura que temos assumido perante Gaia e o que isto tem significado, com o intuito de construir novas percepções da realidade e novas formas de pensamento, alinhadas com os princípios da sustentabilidade.

Mas para ajudar a construir o “outro mundo possível”, a educação ambiental não deve descuidar da sua capacidade de agregação de novos agentes. Sobretudo nestes eventos, um risco muito grande é cairmos na arrogância do jargão.


É um verdadeiro paradoxo que nos suscita um importante questionamento: como manter e fortalecer esses laços identitários, que carregam uma crítica direta aos padrões de consumo e de relacionamento dos humanos entre si, com as outras formas de vida e com o ambiente e que, portanto, trazem grande potencial de permear novos símbolos no imaginário coletivo, sem que isso se torne um "espantalho gramatical" do movimento?

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2.8.07

Juventude sociambientalista cobra posição de Graziano sobre Tijuco Alto

Cerca de 50 jovens com idades a partir de 17 anos, integrantes dos Coletivos Jovens Caiçara e Caipira / REJUMA – Rede da Juventude pelo Meio Ambiente e Sustentabilidade e outros grupos, pressionaram o secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Xico Graziano, a se posicionar oficialmente sobre a construção da Barragem de Tijuco Alto, no Rio Ribeira de Iguape.


A juventude socioambientalista, composta também por moradores do Vale do Ribeira, conversou com Graziano no dia 28 de julho, em São José do Rio Preto, após a Plenária Final do III Encontro Estadual de Educação Ambiental (EEEA). Os educadores e educadoras ambientais e instituições, redes e coletivos presentes no encontro aprovaram uma moção de repúdio à construção da barragem de Tijuco Alto, apresentada pelo CJ Caiçara.

O secretário se esquivou e afirmou que não deve tomar posição oficial no caso. “A Secretaria não tem posição quanto a essas questões. Nós não temos e não deveremos nesse momento ter”, declarou. Justificou dizendo que não poderia se posicionar em relação a algo que compete a outro órgão, no caso o Ibama, responsável pelo licenciamento. Entretanto, disse que, se for possível compensar os impactos, pode haver até “ganho ambiental”.

A cobrança foi realizada um dia após o governador José Serra vetar o Projeto de Lei que transformava o Ribeira de Iguape em Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental do Estado de São Paulo. Quanto ao PL, um assessor de Graziano informou que a propositura não pôde ser aprovada porque o Rio Ribeira de Iguape, estando nos territórios de São Paulo e Paraná, é um rio Federal. Neste caso, o projeto deve sair do legislativo federal.


O Secretário conversou com os jovens após manifestação durante a plenária final do III EEEA. Portando cartazes e mudas de árvores, repesentando a vida, e entoando frases como "Terra sim! Barragem não!" e "Terra pra plantar e não pra alagar!", a juventude demonstrou amplo descontentamento com o andamento do processo de licenciamento da Barragem de Tijuco Alto. Durante as audiências públicas, os argumentos das comunidades e os dados técnicos apresentados por pesquisadores, comprovando os altos impactos sociaoambientais e culturais que causaria o empreendimento, não estão sendo levados em consideração.


Durante a conversa, que durou pouco menos de dez minutos, Xico Graziano falou que não tem informações técnicas sobre as comunidades tradicionais que habitam a região. Apesar disso, afirmou também que a SMA possui técnicos que conhecem muito mais sobre o caso até do que os jovens que moram na área.

Disse também que não vai se esquecer daquele papo.

Confira mais abaixo toda a conversa da juventude socioambientalista com o secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo.

Contexto
Único rio federal sem intervenções em seu curso com a construção de barragens, o Rio Ribeira de Iguape está na maior área contínua de preservação de Mata Atlântica do país. Hoje um empreendimento privado, a barragem de Tijuco Alto, põe em risco a área, considerada Patrimônio Natural da Humanidade pela UNESCO.

Tijuco Alto é um projeto da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), do Grupo Votorantim. A proposta é gerar energia para a produção de alumínio em sua fábrica no atual município de Alumínio, antigo distrito de Mairinque. A resistência das comunidades locais e das organizações socioambientais tem evitado a concretização do projeto.

Com planejamento de 153 m de altura e 65 km de extensão para geração de 150 MW de energia, a barragem de Tijuco Alto foi considerada a maior ameaça à complexa diversidade socioambiental e cultural do entorno do Rio Ribeira de Iguape.

Já foram realizadas diversas manifestações populares contrárias ao empreendimento. O Relatório de Impacto Ambiental, confrontado com dados técnicos dos impactos que provocaria a barragem, mostrou-se inconsistente. Ainda assim o risco do Ibama aprovar o licenciamento é muito grande, já que o Ministério de Minas e Energia é favorável à construção.


Conversa com Xico Graziano

Bruno (Itanhaém) - Em nome dos Coletivos Jovens Caiçara e Caipira de Meio Ambiente e Rejuma - Rede da Juventude pelo Meio Ambiente, nós queremos saber a posição da Secretaria de Meio Ambiente e do Governo do Estado de São Paulo sobre a construção da barragem de Tijuco Alto e sobre a transformação do Rio Ribeira de Iguape num Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental.

Xico Graziano - “A secretaria de meio ambiente só tem uma função na vida, que é proteger o meio ambiente paulista. O que for possível pra exercer esse poder na fiscalização ou nas ações ambientais de São Paulo, nós existimos pra isso. Nós não permitiremos que ações sejam feitas com prejuízos ambientais, ou com problemas ambientais que não possam ser mitigados. É assim que estabelece a legislação brasileira. Às vezes você vai construir uma rodovia, como o Rodoanel, em São Paulo. Ele corta a região do Guarapiranga. Então, pra permitir ao Rodoanel existir você exige uma série de compensações ambientais que eles foram obrigados a fazer. A mesma coisa com o aeroporto. Vai precisar construir mais uma pista lá em Cumbica. Então tudo bem, você precisa da pista, só que vai construir num local que tá lá a vegetação, um pequeno córrego. Tem que fazer a mitigação, a compensação. Tem que saber como é que o dano ambiental, nesses casos inevitáveis, como é que ele consegue ser controlado e acaba tendo, ao invés de prejuízo, ganho ambiental. Se for incompensável as obras não podem ser feitas.

JNI* - Mas os impactos no Rio Ribeira de Iguape serão enormes. Não tem como compensar a perda de uma riqueza como aquela!

Graziano - Quem diz isso é o EIA-Rima.

Lohan (Cananéia) - O EIA-Rima foi feito pela CENEC, o mesmo pessoal que era da Camargo Correia, que já fizeram barragens com falhas. O Vale do Ribeira é o que sobra de Mata Atlântica aqui no nosso Estado. Durante as audiências públicas, todo mundo viu, foi uma grande palhaçada, o Ibama presenciou! Eles ficaram sem resposta para todos os argumentos técnicos...

Graziano - O licenciamento é o Ibama que está fazendo. Se estivesse na nossa Secretaria eu teria que ter uma posição um pouco mais decisiva talvez. Mas nesse caso o licenciamento é do Ibama. Nós estamos acompanhando. Nós tínhamos muita gente lá nessa audiência. Haviam projetos de três barragens. Duas delas eram inaceitáveis. E de cara já foram abandonadas. Resta agora a de Tijuco Alto. O Ibama diz, esse problema quem resolve sou eu. Tirou do Estado de São Paulo, vocês sabem disso. Então nós estamos lá, acompanhando o resultado das audiências.

Vanessa (São Vicente) - Mas o Governo do Estado dever ter uma posição...

Lohan – O Ministério de Minas e Energia teve um posicionamento totalmente tendencioso...

Graziano - Vamos acompanhar as audiências. Outras audiências serão feitas... Isso nós temos que, nesse caso, em alguns casos. Foi como o projeto de lei. Você tem que seguir a legislação brasileira. Não adianta, a gente que é órgão público. Se tomar medidas, ou posições, ou ações que não têm fundamentação legal, vem o Ministério Público e te bota uma ação na cabeça. Então, essa questão da responsabilidade, de quem tá no poder público, às vezes você não é capaz de fazer o que gostaria porque não tem respaldo legal para isso. O Projeto de Lei tem esse problema, no caso, a base legal dele era muito frágil. Então não pode ser sancionado. Se o governador fizesse isso ele cometeria um problema. No caso também desse licenciamento que está sendo feito, como o Ibama tomou a si esse processo, nós estamos acompanhando, vendo que ele seja feito da melhor forma possível.

Thomas Enlazador (Olinda - PE) - Mas o peso do senhor, Secretário, é muito grande. Se o senhor já se posiciona politicamente contra uma agressão ambiental histórica que está sendo barrada há muitos anos... A discussão de Tijuco Alto já, desde a época do Fabio Feldman...

Graziano - Mas se é do jeito que você está dizendo o EIA-Rima não será aprovado. Porque a análise, o Estudo de Impacto de Ambiental mostra exatamente isso. Quais são os impactos ambientais, e como esses impactos ambientais podem, ou não, ser mitigados, serem amenizados, e quais compensações devem ser feitas. Essa é legislação. Esse é o EIA-Rima. Não quer dizer que não tem impacto. Sempre haverá impacto. Em qualquer coisa, inclusive no nosso caminhar. Andar de carro, vir fazer um Congresso desses... Existem impactos associados a todos eles.

Bruno - Tudo bem, secretário, mas qual a posição da Secretaria de Meio Ambiente sobre a construção da barragem de Tijuco Alto e sobre a transformação do Rio Ribeira de Iguape em um Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental?

Graziano - A Secretaria não tem posição quanto a essas questões. Nós não temos e não deveremos nesse momento ter.

Bruno - Não devem ter?

Graziano - Não. Não deveremos ter nesse momento posição sobre isso.

Bruno - E o motivo?

Graziano - Hãn?

Bruno - O motivo de não dever ter...

Graziano – É, não dever ter.

Cleber (Cananéia) - Você acabou de afirmar que o papel da Secretaria de Meio Ambiente é proteger o Meio Ambiente. Então dever ter um parecer.

Graziano - Proteger o meio ambiente não significa ter a mesma posição que vocês. COncordam com isso?

Bruno - Mas tem que ter uma posição.

Graziano - Não necessariamente. Minha posição é em defesa ambiental.

Lohan – Ou em defesa do dinheiro do Antõnio Ermírio de Moraes?

Graziano – Imagine.

Thomas - A Secretaria de Estado vai seguir a mesmo política desenvolvimentista do Governo Federal? Será que é esse o caminho?

Graziano - Acompanhem. Viram aqui hoje, tão vendo o que está acontecendo.

JNI - A gente não quer só acompanhar. A gente quer participar!

Graziano - Não sejam intransigentes. Defendam o seu ponto de vista...

Vanessa - Não é ser intransigente. Vocês representam o povo, e o povo não quer!

Graziano - Façam o que vocês estão fazendo. Continuem fazendo o que vocês estão fazendo, vocês estão certos. O mundo se move assim mesmo. Vamos ver...

Bruno - Mas pro mundo se mover de forma realmente democrática, atendendo as necessidades da maioria, a maioria precisa ser ouvida. E a maioria tá se manifestando. As populações locais estão se posicionando contra, a nação apóia, e mesmo assim, isso está encaminhando pra que saia. Por isso a gente pede uma posição.

Graziano - Eu não sei se está encaminhando pra que saia. De qualquer forma as audiências estão acontecendo...

JNI - Já aconteceram...

Graziano - (...) e as manifestações são muito fortes, contrárias, não é? Nós gostaríamos que nenhum rio tivesse mais hidrelétricas no Estado de São Paulo. Agora, essas decisões, tem as vezes outras influências. E nesse caso, o Ibama solicitou que ele fosse o responsável. E eu não posso, como homem público que sou, não posso ter uma posição se é um outro órgão que está fazendo. Vocês têm que entender isso. Não cobrem de mim o que eu não posso dar. Acompanhem as coisas como vão acontecer.

João Malavolta (Itanhaém) - E o senhor, sem ser instituição, como ser humano e cidadão. É a favor da construção?

Graziano - Eu não sou a favor de nenhuma barragem, hidrelétrica, antes de mais nada, porque sou um pescador.

Jovens - (gargalhadas)

Graziano - E sempre fui a vida toda. E sou um apaixonado pela natureza. Mas não é essa a questão. A questão é sobre as decisões públicas. Esse país vai enfrentar um apagão de energia daqui dois anos.

JNI - Se isso vier a acontecer, o senhor vai ficar chateado, vai tomar alguma decisão, ou vai aceitar numa boa?

Graziano - Não entendi a sua pergunta.

JNI - Se a barragem for construída. O Senhor disse que não é a favor como pessoa. E o senhor vai engolir isso?

Graziano - Se por ventura isso for necessário fazer e os danos ambientais que ela causará puderem ser mitigados ou compensados...

Vanessa - As comunidades Ribeirinhas não podem ser compensadas!

Graziano – Mas eu não tenho informações sobre isso. Técnicas.

JNI - Mas deveria ter!

Vanessa - As pessoas moram lá!

Bruno – Nós temos...

Graziano - Mas eu não tenho... eu não consigo saber de tudo.

Cleber - A Secretaria de Meio Ambiente não é a que protege?

Graziano - A SMA tem muita gente que sabe disso mais que vocês, podem ter certeza. Mas o posicionamento oficial da secretaria é outra coisa.

Lohan - Mais que as comunidades tradicionais eu tenho certeza que não!

Vanessa - Uma coisa é ir lá. Outra coisa é acordar e dormir lá. Viver lá.

Graziano - Nós estamos acompanhando. Nós temos técnicos que trabalham nesse assunto a mais de dez anos. Esse caso vem lá de trás, há mais de vinte anos. Desde a época do Montoro esse assunto já apareceu com as três hidrelétricas. Duas são completamente malucas. Esta tem um estudo que está com possibilidade de ser analisado. Eu não sei qual vai ser o fim disso. E eu não posso, e não devo, expor uma posição oficial da Secretaria sobre esse assunto. Ok?

Bruno - Ok.

Graziano - Mas eu não vou me esquecer dessa conversa que tivemos aqui hoje.

Vanessa - Até porque a gente não vai parar por aqui.

Graziano - Muito bem! Não parem, não parem.

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24.7.07

Diversidade na mudança

Do fundão vozes ressoam
quase nunca valorizadas
tudo vale, tudo é útil na inclusão,
na pluralidade da ampla participação

Vamos falando baixinho e chegando
mais perto, devagarinho,
um processo diferenciado,
lento, participativo, pensado.


Radical é o geral,
das partes pro todo e todo para as partes,
tudo junto misturado
se constrói a sólida arte.

A beleza de um rio está na sua complexidade,
o valor de uma pessoa está na sua vontade,
de fazer melhor e fazer diferente,
de tentar mudar agora com olhar à frente.


Arte é vida, vida é arte.
ilusões e fantasias, fenômenos e realidade
aquele que ama a vida tem como
premissa a diversidade.

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Notícias do III EEEA
Começa amanhã e vai até o dia 28 de julho, em São José do Rio Preto, o III EEEA - Encontro Estadual de Educação Ambiental - "Nas águas a EA: produções e políticas". É o ponto culminante do processo de consulta pública à minuta PEEA - Política Estadual de Educação Ambiental, que vai definir como deverá ser implementada a EA tanto no ensino formal quanto informal. Vai reunir educadores e educadoras ambientais de todo o Estado de São Paulo para pensar a construção da PEEA.

Esses eventos são extremamente ricos. Nos permitem o contato com experientes educadores ambientais, como com aqueles que estão começando a se interessar pela área, a enxergar o grnade potencial emancipatório e transformador que tem a educação ambiental.

Nos próximos dias pretendo registrar aqui com fotos, entrevistas, depoimentos e relatos um pouco dos bastidores do evento. Personagens da construção da PEEA, as conversas de corredor, momentos marcantes, as personalidades presentes, impressões de jovens e adultos, experientes e inexperientes etc.

Até lá!

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2.7.07

Pra você, o que é ser jovem?

Esses dias chegou um e-mail na minha caixa postal com a seguinte pergunta: "Pra você, o que é ser jovem?"

A pergunta faz parte de uma enquete que a ONG Aracati está promovendo para integrar um material destinado a Gestores Públicos sobre Políticas Públicas de Juventude. A resposta necessitava ser sintética. Fiz o possível para ser curto e grosso e ao mesmo tempo não ser totalmente superficial.

Minha resposta foi a seguinte:

"É viver uma instabilidade potencializada pela formação cognitiva, ética, espiritual, corporal e inserção ao sitema social. É viver uma grande responsabilidade, pois indívíduos em construção têm mais chance de construir um coletivo diferente. Ser jovem é ser considerado flecha, apesar de viver intensamente como flecha e como arco."

E pra você, o que é ser jovem?

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